Opinião – Buzinas em silêncio: aos garis

A vitória deles é a nossa. Uma vez meu irmão me disse uma coisa que resume bem o que vem acontecendo no Rio com os garis. Indo de carro para o centro, ele ao volante – benza Deus. Estávamos em cima da hora – até aqui nenhuma novidade.  Só que bem no começo da via, um pequeno trânsito se formava. Com pressa, eu e ele já começamos a procurar o motivo.
– Quê isso ainda aqui no começo? – se perguntou em voz alta o Douglas, impaciente, franzindo a testa. – Ah, é o caminhão de lixo. – soltou, já com tom mais calmo, quando avistou os garis.
– Ah é. Engraçado, né. Por isso que ninguém buzinou ainda. – disse eu, na minha imbecil inocência de continuar o assunto.
– Buzinar? Cê é louca? Quem que vai buzinar pros caras? Eles tiram nosso lixo! – respondeu de súbito meu irmão, me olhando como se eu fosse mesmo maluca por supor que alguém fosse buzinar para os garis, que estavam cumprindo seu serviço.
  Trabalho que ninguém quer. Quanta sanidade! Meu irmão estava coberto de razão. Quem vai desrespeitar uma pessoa que FAZ O GRANDE FAVOR de tirar o lixo que VOCÊ produziu de perto de você, da sua família, da sua casa? Alguns tentam. E isso devia nos surpreender tanto quanto minha suposição surpreendeu meu irmão. Foram tantas reviravoltas no caso. Infelizmente nós temos a mania de só festejar pela vitória de causas próprias.
  Classes, profissões. Hoje a vitória dos garis surpreendeu pela obviedade que deveria conter, vindo de pessoas que tem o respeito de toda uma sociedade. Em meio ao samba carnavalesco… que grande estratégia, garis! E ainda lidar com o lixo dos outros, com um sindicato que não os representa e com a causa colocada em xeque por tantas vezes. Que grande garra.

  Ainda há muita demanda para a lei da oferta e procura ser lembrada em casos como o dos “empregos que ninguém quer”, mas a vitória dos garis tem que ser vivida como a nossa própria. E a dúvida sobre o que ainda está por vir, tem que ser partilhada.
  Que as prefeituras reconheçam. Que o respeito prevaleça e a mínima dignidade seja oferecida. Eles são só um exemplo, o exemplo mais claro de como funciona essa cadeia. Que as buzinas se calem e esperem, os garis precisam trabalhar em paz.

foto: Mídia Ninja

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