café especial: ainda dá pra achar cafés realmente fora da curva?

garimpar café especial na internet hoje em dia é como entrar em um restaurante e abrir um cardápio de 200 páginas. dá vontade de fechar e sair correndo (isso quando o cardápio não é por QR-Code).

desencanar e pedir um pingado às vezes parece tão melhor. eu, aliás, adoro um bom pingado. até porque ele não custa a partir de 60 reais e nem me promete notas sensoriais super diferentonas e nem um aroma que vai encher a casa de perfume.

é, às vezes o pingado entrega mais que muito “””café especial”””. e olha que eu trabalho nesse setor há mais de 10 anos! adoro café de qualidade, dos mais comuns aos mais doidos…

e o problema é comprar gato por lebre.

mesmo assim, quem um dia foi picado pelo bichinho do café especial sabe, não paro de procurar. e a resposta pra pergunta do título é: sim, ainda dá pra achar cafés especiais realmente fora da curva. como? com muita, mas MUITA calma. (mas eu também dou umas dicas mais concretas no final do texto, respira).

marketing no café especial: o problema é prometer muito e entregar muito pouco

sei que quem começa (e tem grana pra isso), não deixa de ter café especial em casa, ou de consumir nas cafeterias e por aí vai. o problema é que tem muito, mas muito marketing sem base na qualidade por aí.

eu trabalho com comunicação, sei da importância de mostrar o produto e vendê-lo mesmo! mas prometer sem entregar? aí é o maior tiro no pé que uma marca pode dar.

tem sido meio frustrante andar pelas feiras, cafeterias, torrefações… e encontrar cafés até bons. mas bons e é isso. café honesto do dia a dia, com qualidade. mas que não tem NADA do que a embalagem tá dizendo.

ou pior, café médio.. café mal torrado. e a uma bagatela de 65 reais, porque é microlote de um microprodutor… mas que curiosamente vende café pra outras 20 empresas. hum. curioso como o conceito de micro tá ficando elástico.

curioso como o conceito de RARIDADE não tem mais feito sentido.

e a pontuação não fica atrás. dia dessas, expliquei pra uma amiga que os números sobre ‘Café 87 pontos’ são geralmente avaliados antes do café ser torrado da forma final.

ou seja, são pontos estabelecidos por provadores profissionais sim, mas pra mostrar o potencial do café. não quer dizer que quem torrou tenha conseguido entregar TODA aquela belezura, entende? é complexo. isso sim é complexo.

como escolher cafés especiais?

então, afinal como ainda conseguir escolher cafés especiais que realmente valham o preço?

pensei em quais informações eu digo sempre pros meus amigos considerarem antes de escolherem o seu café especial FORA DA CURVA e vou compartilhar aqui também. são elas:

  1. esqueça a pontuação: é, ela diz respeito ao potencial do café vendido para a torrefação, mas não reflete o produto final.
  2. vá pelo sensorial: seu gosto é seu norte. por isso, PRA MIM, essa é a informação mais importante que a embalagem deve trazer. o que o consumidor vai sentir desse café? doçura? acidez? ele é mais encorpado? ou é bem leve? descubra o que você gosta e procure na descrição da embalagem. doce? encorpado? ácido? aí é com você!
  3. conheça a torrefação: quando provar cafés de torrefações que entreguem o que prometem na descrição sensorial do café, abrace pra vida!
  4. peça dicas para quem você confia (e sabe que manja do tema e indica só o que já aprova mesmo)! tem muita gente bacana nesse mercado. inclusive ótimas criadoras e criadores de conteúdo. mas também tem bastante charlatão e gente que mal chegou e já age como se já soubesse tudo. então, analise e acompanhe com calma para descobrir quem faz um trabalho sério. e aí, acolha a indicação dessa pessoa e vá avaliando.. se o gosto dele bater com o seu, e as informações que ele dá forem corretas, é um ótimo indicador!
  5. deguste! experimente muito em feiras e eventos presenciais: nada como o olho no olho! e o paladar à prova! por isso, acho degustações e feiras momentos excelentes. prove e depois compre 🙂

quais cafés eu mesma indico?

a primeira coisa que preciso dizer é que não há uma garantia certeira. porque os cafés mais incríveis que eu já provei, muito provavelmente já acabaram. o café, assim como o vinho, vai depender da safra, do produtor, do mestre de torra, do transporte…

na verdade, o caminho do café é mais difícil do que o vinho. depois de tudo que eu já mencionei entra uma etapa extra: fazer o café! é isso mesmo. pode ser que o problema seja a pecinha que está tentando extrair o café. (essa doeu, né?).

essa sou eu: thais fernandes, jornalista que escreve sobre (e prova) cafés há mais de 10 anos 🙂

mas considerando tantas variáveis, ainda tem algumas marcas que eu ainda indico! são cafés que eu já tomei MUITAS vezes. então, posso dizer que essas marcas conseguem segurar a marimba de manter CONSISTÊNCIA na qualidade que entregam. e ainda tem cafés de diferentes sensoriais pra entregar. olha só:

  • Gamers Coffee (eu não sei jogar nem Super Mario, mas juro que) essa marca aqui entrega alguns dos cafés mais bem garimpados e torrados que eu conheço! eu tenho até cupom no site. e não, não me conectaria a uma marca que não confio.
  • Café Di Preto: o Rapha é um mestre de torra de excelência e tem opções de pacotinhos menores, que dão oportunidade de provar sabores diferentes em uma mesma compra. todos que comprei eu realmente curti!
  • Academia do Café: além de cafeteria em BH, a Academia também faz torra e venda de pacotinhos. trampo de excelência!
  • Santo Grão: eu trabalhei lá há uns anos e sempre fiquei chocada com a capacidade de produzir quantidade e qualidade ao mesmo tempo. tem blends e microlotes, cada um a um preço e todos entregando o que eu lia no rótulo.
  • 3 Corações: ACALMA O CORAÇÃO antes de reclamar. a marca é gigante? sim. tem cafés de qualidade mais baixa? também. mas a linha Rituais é realmente um deleite. e tem consistência. então, dependendo do que você quer, ou do que pode pagar, acho que pode ser uma boa escolha. não costumam vender gato por lebre.

se tu já conhece meu trabalho, ou descobriu agora, pode se achegar! sempre indico marcas e produtores que eu curto. e tento detalhar ao máximo o que aquele café entrega. se é do dia a dia ou realmente fora da curva.

tem outros conteúdos de listão de cafés pra se esbaldar aqui no blog ou no meu instagram @tha.experimentando.

afinal, tem espaço pra todo mundo que chegar na honestidade! certo?

Desinformação hypada: conteúdo e café feitos rápido demais

vamos falar de criação de conteúdo? e de desinformação hypada e precarização no café?

já fez um café correndo, com a moagem que apareceu na frente, tacando a água de qualquer jeito? e provou como fica depois? então, vamos falar de conteúdos feitos desse jeitinho.

começamos com exemplos práticos dessa desinformação hypada (e precarização) e, depois, a gente vai se aprofundar, combinado?

  1. coar café com uma fatia de bacon (ou qualquer comida que achar). 
  1. termos técnicos jogados e ‘fermentações’ milagrosas. 
  1. compartilhar conteúdo histórico com erros básicos. 
  1. precarizar profissionais de conteúdo = não pagar por palestras, mediações, parcerias e afins. 

1 – Trends bizarras: colocar bacon e outras comidas no café coado 

Isso dá visualização. E como dá! Mas alguém acredita que faz sentido coar um café com uma fatia de bacon junto

Deve ter quem acredite, sim. E até quem goste. Eu tinha um amigo que comia linguiça com leite condensado e adorava. O ponto, então, não é gosto. Mas, sim, o desespero por likes. 

Eu e criadoras que eu admiro (como a @PuraCaffeina) recebemos sempre mensagens diretas (DMs) compartilhando esse tipo de vídeo. Não é nosso estilo. Por que, então, as pessoas compartilham? Pelo absurdo. Pela vontade de dizer: “olha isso, que bizarro”. 

especialista em café. será?  

Eu te respondo: não. Isso não é ser especialista em café, isso é estratégia de crescimento com base no absurdo.

eu sei que é tentador compartilhar as doideiras, masss você pode muito mais! por isso, compartilhe e salve posts de quem estuda e quer democratizar o acesso ao café como alimento de qualidade.

formas de criar conteúdo 

existem diferentes estratégias para criar conteúdo. o modo turbo dos virais requer velocidade. o que muitas vezes significa sair passando a bola pra frente sem pensar. como naquela brincadeira da ‘batata quente’, sabe?

só que todo conteúdo traz uma informação. pode ser através da música, do texto, da fala, da dança… enfim. nenhum vídeo, foto ou post, mesmo os mais rápidos, vem num ‘vácuo’. afinal, é conteúdo. 

por outro lado, tem estilos mais ‘slow content‘. aqueles criadores que aparecem vez em quando, sem necessariamente seguirem trends. um conteúdo que muitas vezes tem aquela carinha de ‘acordei assim’. toda naturalzinha. e esses? bom, eles também tem uma mensagem. mesmo os que parecem mais ‘despretenciosos’. 

e, por fim, chegamos aos conteúdos especializados. ou naqueles que são lidos como especializados. é mais ou menos por aqui que quero estacionar com vocês. bora dar uma olhadinha de perto? e, claro, focando no nosso café de cada dia? 

2- fermentação (nem nada) sozinha não faz verão 

mais uma pequena polêmica. falar ‘difícil’ ou usar termos hypados também é estratégia.  

eu tive um professor que dizia “escrever difícil não é escrever bem”. e é exatamente nisso que eu acredito! só que usar termos técnicos pode, sim, passar uma imagem de ‘especialista’. e quando a pessoa só joga as palavras por aí, sem conhecer mesmo, acaba sendo só enganação.

um exemplo bem atual é falar de fermentação – baita assunto complexo – como se fosse a tábua de salvação de um café. “Ah, tal café é fermentado, por isso é tão bom”.

gente, fermentação pode ser feita de várias formas. é complexo e é caso de saúde. se você é produtor, busque cursos com quem sabe realmente sobre isso. não faça correndo, sem estudar, só porque estão pagando melhor. e se tu é consumidor, vai com calma. confia no seu paladar mais do que nos coachs. 

3 -compartilhar conteúdo histórico com erros básicos. 

é o seguinte, todo mundo está sujeito a errar. isso tá claro. mas produzir visando só os likes… sem pesquisa, sem embasamento, sem noção até (rs)… é muito diferente de errar tentando acertar.

isso acontece em todas as áreas do conhecimento e divulgação. inclusive no café! mas, por favor, se você se propõe a ser criador de conteúdo/influencer… estude. pesquise. diga de onde veio aquela informação. é o mínimo.

se a ideia é informar, e não levar desinformação hypada, pesquisa é só o começo. q é uma delícia, vai por mim. eu amo fazer! se quiser, me contrate 🙂 

4 – você apoia grandes eventos que precarizam profissionais de conteúdo e nem sabe 

uma palestra incrível. um painel com uma baita mediação e convidados que trouxeram muita informação da boa! 

e todos esses trampos não são remunerados. já imaginou? nem precisa. essa é a realidade na maioria dos grandes eventos do café. e eu estou falando de eventos grandes mesmo, tá?

os Mestres de Cerimônia dos campeonatos, por exemplo. já perguntou para algum deles como tá o pagamento pelo trabalhão que dá apresentar uma disputa tão específica?

melhor: vamos começar a perguntar aos organizadores dos eventos:
-Quanto você paga para trazer conteúdos bons? (evento que cobra entrada, cobra espaço de exposição e tem patrocínio, viu).

se a resposta for que não pagam nada, ou pagam muito mal, há algo muito estranho no reino do café especial… concorda?


mais conteúdo em vídeo, foto e algumas reflexões em @tha.experimentando

qual é o país do café, afinal?

uma coisa me deixa com a pulga atrás da orelha. o título de ‘capital do café’ nas cidades. e de ‘país do café’ entre as nações.

polêmica alert* mais um texto de opinião chegando 🙂 mais um tema que ressoa na minha caixola. e não é de hoje.

nos últimos anos, tenho frequentado muitas feiras. no Brasil ou na gringa. em São Paulo, capital, e nos interiores daqui e de Minas. e uma coisa me deixa com a pulga atrás da orelha. o título de ‘capital do café‘ nas cidades. e de ‘país do café‘ entre as nações.

agora cê já pode estar com raiva dessa jornalista que inventa moda até de questionar o título de ‘Brazil, the Coffee Nation‘. esse, aliás, é o nome do projeto que promove o café do Brasil no exterior, juntando a associação do setor dos especiais, a BSCA, com a nossa agência ApexBrasil.

então… calma, bem. eu vou concordar com você! esse é um belo slogan. acho mesmo bonito. e o principal: acho mesmo real. a gente aqui é um país que viveu e vive café ainda hoje. (apesar de precisar registrar aqui a história escravagista que nos marcou).

então, qual o que me deixa curiosa no coffee nation? a pulga mora na orelha do singular. se um é O país do café, os outros todos deixam de ser? é uma pergunta genuína.

só para citar três casos emblemáticos:

  • Etiópia
  • Colômbia
  • Vietnã

esses aí, acima, não são também nações do café? o primeiro, berço da espécie da arábica; o segundo, referência no marketing; o terceiro, maior produtor da espécie canéfora. para simplificar e reduzir beeeeem o envolvimento de cada um com o grão.

mas a danada da dúvida só foi crescendo quando estive na Expo 2020. um evento que reúne pavilhões de países do mundo todo! eles querem se mostrar. escolhem tudo de melhor e estampam em fotografias e apresentações. e lá eu vi o tamanho do café que a gente precisa dividir. não é só a xícara. é o simbolismo.

fui buscar o site de um desses países que me chamou a atenção pelos frutos que coloriam o pavilhão. era o Burundi. uma nação que também é o café:

o Burundi era só um dos países que tinham café em slogans e fotos lá na exposição universal

Brazil, the coffee nation

o maior produtor. principal exportador. dono de uma diversidade gigantesca. criador de tecnologias do setor. lançador de tendências na prova (alô, sabiás). referência em pesquisa. eu sei, nós somos mesmo a nação do café.

o que me deixa com vontade de trazer essa provocação é entender o tamanho desse setor. se no mundo dá pra ter dezenas de países tão envolvidos com o café, a ponto de colocarem essa planta/fruto/bebida nos seus estandes, slogans, turismos… o que dirá de cidades que tem nessa produção a base da economia toda?

de Londrina, no Paraná, à Cacoal, em Rondônia… passando por Três Pontas, Minas Gerais, e incluindo São Paulo, capital… esse título de ‘cidade do café’ tá pra todo lado. e tem justificativa. é justo. todos esses lugares encontram um lugar muito simbólico no café.

por isso, pra mim, o que dá para falar sem medo de ser feliz é do papel de cada um nessa história. tem o que manda bem nos cafés de altitude. aquele que criou um processo. o país com mais cafeterias de especiais. e aquele que tá inovando agora. sem esquecer do berço dessa planta. enfim, espaço e característica tem pra todo mundo.

mas, de toda forma, é forte pra caramba perceber isso. e bem compreensível. (quase) todo mundo já se sentiu um pouco capital do café no Brasil. e, por que não?, no mundo.