"Obrigado por emprestar as orelhas"

Obrigado por emprestar as orelhas 
Valeu pela terapia de hoje. 
Ouvi essas duas frases. Na mesma semana! …. e aquela velha dúvida... que barco é esse em que viemos parar?  

Como você se sente quando alguém te escuta?



Corta pro Titanic. Balada grande. Falação. Barco afundando. Todo mundo gritando. Correria. A banda tocando (?). Todo mundo no mesmo lugar. Falando ao-mesmo-tempo. Ninguém ouve ninguém? 
Eein. Nem de balada barulhenta eu gosto. 
Minha dificuldade de falar trouxe um presente: Ouvir. Enquanto a gente naufraga, posso ouvir os pedidos de socorro. Parece presente de grego olhando assim. 
O que a minha escuta pode fazer? Nada. É passivo. E eu pensava que era besteira. 
Umas semanas antes, era eu falando. Fiquei com a sensação que não adiantaria falar. ‘Que besteira’, eu mesma gritava lá dentro. 
Mas, tenho me auto analisado. Depois daquela semana, veio um pouco mais de calma. Não de calmaria, diga-se de passagem. Mas de calma nos meus próprios gritos… talvez porque alguém escutou. Fiquei com vontade de abraçar o Júnior. A Vanessa e a Aline (inclusive mó legal falar mesmo quando não é pra você ouvir). 
Então, continuei escutando. 
O meu amigo da portaria falou uma hora a fio… depois me mandou dormir. 
“Vai dormir, Thais. Obrigado por emprestar as orelhas”. 
A moça do uber, todo nosso trajeto. Uns 25 minutos. 
“Olha, valeu a terapia hoje. Tudo que eu ouço todos os dias, você escutou de volta agora”. 
Eu fui dormir boiando nessa sensação de… ‘por que as pessoas estão agradecendo?’. Eu, literalmente, não fiz nada. A cada 10 palavras, minha resposta era com os olhos. Não eram histórias de se opinar. Mas de ouvir mesmo. Não precisei de ação ativa. 
Fui pro meu dicionário ostentação – comprado naqueles trem do metrô – e aí… 
Escutar (verbo) 
  • 1transitivo direto 
  • estar consciente do que está ouvindo. 
  • “conversando na praia, ouvia o mar, mas não o escutava” 
  • 2transitivo direto 
  • ficar atento para ouvir; dar atenção a. 
  • “escutava com paciência aquelas queixas” 
… entendi o tamanho dessa não-ação. Não falar. Só escutar não é ‘só’. É o que a gente precisa de nós. 
Tenho pra mim que não precisamos de coachs pra isso. É um hábito que se cria. Pra isso, trabalho, disciplina e – aí sim – ferramentas podem ajudarMas, escutar não tem hora marcada. Tem? A gente não precisa transformar mais uma coisa humana em mecanizada, precisa? 
Um abraço pro meu amigo da portaria e pra motorista do uber. 
Escutar vocês foi maravilhoso. E o que vocês falaram no fim? Foi generoso. Me fez pensar. Abraçar a escuta. E, por que não, a minha própria fala? Quando for a hora. A hora que for.  

Deixe um comentário