café canéfora: quem você pensa que ele é?

conilon ou robusta. os dois nomes mais comuns de ouvirmos quando o assunto é um café ser antagonista do arábica. mas que rivalidade de diva pop é essa gente? não precisa disso, rs.

os dois são apenas variedades da espécie canéfora. uma de muitas outras espécies que existem além do próprio café arábica. calma lá. vamos conversar mais sobre isso 🙂

café canéfora é uma outra espécie. não tente comparar com arábica. Foto: Thais Fernandes©

fiz um reels falando sobre a importância de tratar do café no plural. são CAFÉS possíveis. não dá pra tratar tudo como uma coisa só.

>>> assista aqui o vídeo: canéfora é uma coisa, arábica é outra.

canéfora é espécie

acontece que até alguns anos atrás poucas pessoas conheciam à fundo o canéfora (ou canephora). eu lembro de entrevistar diversas pessoas que chamavam de conilon (que é a variedade) tudo que não fosse arábica.

hoje, com muito trabalho dos pesquisadores, a gente começa a entender mais da espécie canéfora. e dentro dela, suas variedades: as mais conhecidas aqui são o conilon (agora sim!) e o robusta.

Foto: Thais Fernandes©

entendido isso, também foram institutos de pesquisa, como o Incaper e a Embrapa que investiram pra criar tecnologias de manejo próprias pros canéforas. a planta é muuuuito diferente do arábica. posso escrever sobre isso qualquer dia…

patinho feio dos cafés

tá, mas e a qualidade? ou falta de qualidade, né? é assim que muita gente ainda vê os cafés canéfora… mas isso vem mudando. lembro que lá em 2014, a Mariana Proença, à época diretora da Revista Espresso e minha chefe, pediu para eu entrar em contato com o Artur Fioroti, da Conilon Brasil, pra eles escreverem uma coluna sobre um trabalho pioneiro! esse pessoal já queria mostrar que o conilon podia ter, sim, qualidade.

fico imaginando quantas pessoas torceram o nariz pra eles. Como deve ter sido chegar pros ‘100% arábica’ e lançar um ‘conilon também pode ter qualidade’ lá em 2014…

a coluna que seria para o site que eu era repórter e editora, o CaféPoint, acabou não rolando. mas eu fiquei com um pulguinha atrás da orelha… ‘Qual é o problema desse tal de conilon?’. taí uma das vantagens de ser inexperiente. Eu tinha acabado de chegar no meio do café. estava aprendendo. sabia que existiam essas duas espécies. são diferentes… e e pensava: qual o problema com nisso? foi tentando entender que me aproximei de cooperativas de conilon. dos produtores. e esperei pra descobrir quando é que o patinho feio ia virar cisne.

um espresso incrível e todinho de conilon

aí veio minha primeira experiência marcante com o conilon! cobri a seca de 2017 lá no Espírito Santo, in loco. Fui à Cooabriel, maior cooperativa de conilon do País, eu tomei um café espresso de uma das máquinas automáticas. ‘Huuum… muito bom esse café’. ‘É conilon’, me responderam, orgulhosos.

‘É CONILON’. A pulga atrás da minha orelha virava um elefante. Não tinha sentido. É ruim, mas é bom. Aqueeela prosa de mineiro… E assim fui construindo minha própria visão desse café. Mais barato de produzir, porque é mais resistente às pragas. Contudo, com menos cuidado nos processos de pós-colheita… justamente porque a saca valia menos! Um ciclo. Entendi que a maioria dos conilons, é verdade, não tinham qualidade. Mas isso não queria dizer que não PODIAM ter qualidade.

0% Arábica

Mais uns anos se passaram. Me tornei a responsável pela comunicação da rede de cafeterias Santo Grão e aprendi a gostar da outra ponta da cadeia: o consumo. Estava lá, aprendendo tudo de novo. Barista, extração, torra, flat white. E de repente: ‘compramos uma saca de conilon‘. Quase caí das pernas. e foi um processo delicioso (literalmente) fazer a comunicação para aquele café! Por um tempão pensei em nomes… quebramos a cabeça com a descrição. ‘Pipoca doce’. Era o puro sabor doce daquelas pipocas de saquinho rosa. Você sabe do que eu tô falando? Fazia sentido, porque o conilon tem uma gama diferente de sabores e aromas do que o arábica. Mas tinha a danada da pipoca doce. Que mais eu vou querer?

A linha era perfeita: ‘Um Café Diferente’. Eu tava bem satisfeita. Fizemos o descritivo para os consumidores entenderem o que era aquele café. Foto do produtor. Entrevista pra saber o processo. Tudo feito. Pronto. Menos o nome… Acho até que eu tinha pensado em algumas opções. Mas em uma reunião de gerentes, ouvi o Marco Kerkmeester (fundador do Santo Grão), dizer algo como: “Temos esse café. Ele não tem nada de arábica. É 100% conilon”. Anotei… fiquei matutando. Era tudo muito verdade.

O café não tinha nada de arábica. E tinha tudo de conilon. Eu entendi na hora, mas como os garçons iam entender isso? como os consumidores iam achar aquilo tão genial quanto eu? Eu queria chegar em cada um e dizer: Esse café é o contrário de todos naquela gôndola lotada do mercado. Nada de 100% arábica. Mas eu não ia estar lá, então precisava que o nome do café dissesse tudo naqueles 5 segundos em que o cliente gira a embalagem pra ler.

E aí, deslizou pelos meus dedos: 0% arábica. Zero por cento arábica. Acho que é isso. Eu dei o nome apenas para o jornal interno do Santo Grão. Queria que a equipe entendesse e se apaixonasse pelo café. E o Marco leu. E ficou louco! (ele já é um pouco, assim que nem eu, ne? Mas ficou mais hahaha). Quis dar aquele nome para o café. E assim ficou.

0% arábica é isso. não explica coisa nenhuma. Pega a pessoa pelo lado oposto. Pela dúvida. Pelo ‘que diabo é isso?’. ZERO? Não é 100? Escreveram errado? Eu quero saber! Eu quero saber. E finalmente, ela pergunta. E tem tempo e prazer em ouvir a resposta. Veja, a resposta não é simples. Nem rápida. Mas é deliciosa, como aquele conilon espresso que eu tomei em 2017. E nunca mais esqueci.

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