PODE PÁ: Emicida comenta Passarinhos, Baiana e Quadris

Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa e, muito, MUITO mais do que poderia caber em um dos enormes títulos que esse cara gosta de dar aos seus discos.

Essa semana o  Alexandre Matias e seu #JornalismoArte convidaram o Emicida para uma aula de música e entrevista em profundidade. A experiência de estar ali valeu – e como! – o registro. Foi muita história e lembranças de Angola, Cabo Verde e Madagascar, países africanos que o rapper visitou para conceituar e produzir o CD.

Entre tudo que ficou na memória, tem o que foi possível gravar para ouvir repetidamente. Ficam aqui alguns comentários sagazes e cheios de conteúdo sobre duas faixas e uma das palavras chaves do SCQPL:


A participação de Caetano Veloso na música Baiana
O ritmo delícia vem logo de cara. Com um pouco de atenção dá para notar as muitas referências às figuras e locais marcantes da Bahia. Mas o que você não esperava é o seguinte:  Lembra quando Caetano deu bronca na equipe para aprender a usar a crase? O Emicida lembra bem.

QUADRIS livres
Cada palavra do consistente título do álbum tem seu significado e trabalho.
Para falar sobre Quadris foi preciso que uma cena lá em outro continente mostrasse o quão livres devem ser para movimentarem-se para onde e como quiserem.

Passarinhos tem muito a ver com o banzo
A música prende pela cantoria dos protagonistas – a passarada – logo no início. Mas a letra mostra que não se trata de pura fofura. É bem mais.
Faixa cheia de delicadeza e sentimento ganhou com a voz de Vanessa da Mata, mas vale ouvir quem são as duas outras mulheres que deram uma força para a música entrar no álbum.

Opinião – De Daniela Mercury a Emicida: os que não estão surdos

No meio de todo esse discurso de ódio, quem ainda escuta?

Só não ouve quem não quer.
“A história do Brasil fez o brasileiro ter medo de macumba. Macumba é uma coisa boa! É uma oferenda, assim como em tantas outras religiões”. 

Quando Daniela Mercury falou isso, nesse sábado gelado, foi só um motivo a mais para eu ter certeza de que valia a pena estar ali. Em meio a tambores e dança solta de influência deliciosa da África, como não jogar na nossa cara o que nós somos?

Domingo, 21/6, Palco Júlio Prestes na Virada Cultural 2015 – SP.
Foto: Ênio César

A gente dá ouvidos para uma minoria – que se acha maioria – mas o que eles tem? Holofotes. Muito mais do que esses milhões de ‘diferentes’. As estatísticas deles não levam em consideração o Brasil. Essa sua “”família””, pode ficar com ela, ela não tem nada de minha.
Para cada discurso de ódio que nós temos ouvido, quantas vozes nós temos negligenciado?
Mais do que pelas músicas, essa Virada Cultural 2015valeu muito pelos que ainda estão ouvindo – Ah, Roberto de tantos tempos/ Chico Science de sempre, eles não estão surdos, porque sim, eles quiseram ouvir! E mais do que ouvir, em tempos como esse é delirante que alguém diga!
Emicida, meu quiridu! Quantas coisas você disse lá e que – pelo amor de Deus, se eles não ouviram é porque não quiseram, todos estão surdos – precisam ser ditas todos os dias? A gente precisa gritar.
“tempo doido, época feia
O mundo quer salvar o jovem
Mas não fala de escola?
Só fala de cadeia”
Eu sei, dá vontade de transcrever o discurso inteiro. Mas quer saber? Se a voz é dele, deixa que ele te conta: