Audrey Hepburn e Salvador Dalí te encaram na exposição de Irving Penn: centenário

Natureza morta, fotografias em preto e branco mais vivas que muitas que já vi por aí mas o que mais me chamou a atenção na exposição que visitei no IMS – Paulista? As caras que me olhavam no fundo dos olhos. Os retratos de Irving Penn vão te encarar. Eu sei disso, porque me encararam. Rindo-se. Sérios. Profundamente...

Audrey Hepburn – sorrindo e conversando com com você só com os olhos.


Não se perca: a entrada para a exposição fica no terceiro andar! Ao final? Você desce as escadas e continua se encantando no segundo andar! Giro ao contrário. 😛 É tanto foto que são divididas em 12 eixos temáticos. Em cada seção, a curadoria destaca o processo de experimentação que permeia a produção do artista. 

RETRATOS QUE TE ENCARAM 
Em 1947, sob encomenda da Vogue, Penn começou a fotografar intelectuais que viviam em Nova York. Esses retratos, presentes na segunda sala da mostra, foram feitos em um cenário pouco convencional: um canto estreito, formado entre dois tapumes. Isso, pra mim, foi incrivel de ver! Como a gente é diferente e igual enquanto humano. Vulnerável naquele cantinho.

Acuados nesse pequeno espaço, os modelos hesitavam, mas Penn os estimulava a improvisar, “sabendo que acabariam se revelando ao tentarem acomodar seus corpos, egos e expectativas à estrutura”, como afirma Maria Hambourg. Nessa famosa série, o fotógrafo retratou nomes como Igor Stravinsky, Marcel Duchamp, Alfred Hitchcock e Truman Capote. E tem os inconfundíveis Salvador Dalí e Audrey Hepburn (que não resisti, fotografei, e tá ali em cima). 

Outro cenário, nos mesmos tons, era esse fundo aberto. E uma luz incrível que só fotgógrafo sabe arrumar!

Pedacinho interativo! Aqui, um fundo com luz simulando o que Irving usava em seus retratos…
Ao fotografar, Penn dedicava grande atenção aos detalhes, preferindo trabalhar no estúdio, onde se sentia mais confortável para criar. 

QUEM RESISTE TESTAR ESSA LUZ???


A exposição Irving Penn: centenário começou agora em 21 de agosto, e já foi exibida pela primeira vez no Metropolitan Museum of Art (The Met)! A mostra faz um panorama da produção do fotógrafo norte-americano, reunindo mais de 230 fotografias. Irving Penn (1917-2009), além de trabalhos inovadores no campo da moda, produziu retratos, naturezas-mortas, nus femininos, peças publicitárias, entre outras obras. A curadoria é de Maria Morris Hambourg, curadora independente, e de Jeff L. Rosenheim, curador do departamento de fotografia do Met. 

E tem tanto mais! Cola lá. Entrada gratuita aos sábados! 

Se liga no vídeo, produzido pelo IMS Paulista, sobre essa exposição:

Opinião – Paulo Múltiplo Leminski (a exposição, a obra e o bigode)

Debaixo dos fios daquele bigode, toda poesia. O que me agrada, de cara, em Leminski é a sua caricata figura. Bigodudo, nem muito novo, nem muito velho. A meia idade de Paulo é o que me vem à mente quando ouço “Leminski”. Um dos autores com menos rugas dos quais consigo me lembrar, – e não há problema nenhum nos nossos septuagenários – acho que foi com Leminski que comecei a entender que o autor é real, ele é gente. E ele pode, vejam só!, ser um alguém jovem e, se a gente e ele tiver sorte, pode até estar vivo.

Esses dias fui à exposição ‘Múltiplo Leminski’, aqui em SP. A curadoria é de Alice Ruiz e das filhas do casal, Aurea e Estrela. Um detalhe que, sim, faz toda diferença. Não conheço bem a obra da Alice, também escritora, tão pouco a vida da Aurea e da Estrela. Mas, olha, me senti em casa.. Na casa deles, vendo um álbum de família em forma de poemas, recortes de jornal, móveis e livros do meia Paulo.
Os rabiscos, as interações e os móveis de madeira me fizeram ter uma noção mais concreta da inquietudade de Leminski. É como se cada um desses elementos retratasse um pedaço seu: rabisco – haicai, móveis – concretude, interações – pop. Esse mix ambulante e com bigode é puro ponto de exclamação pra mim!

Onde já se viu um intelectual do naipe dele, poliglota, escrevendo “Tudo que li/ me irrita / quando ouço / Rita Lee”?Me irrita também, Paulo!, tenho vontade de gritar, sempre que relembro esse.

E minutos depois, a calmaria de enxergar essa condição humana.
“Teses sínteses / Antíteses / Vê bem onde pises / Pode ser meu coração”

É como se, entre os móveis da sua casa, ele me abrisse um diário: não importa por onde andes, é sempre um coração no caminho, me confidencia esse danado.

Alguém com uma cara entre pai dos anos 80 e hippie aposentado… e tão genial! E tão ao alcance. Adoro Leminski especialmente por ter sido um dos primeiros a desarmar minha estúpida tese de adolescência, a de que autor era um imortal-morto com cadeira em alguma distante Academia de Letras. O bigodudo viveu com tudo! E é isso, Alice, Aurea e Estrela, não há meio melhor de lembra-lo. Paulo muito “Múltiplo Leminski”.