Como está sendo seu retorno?

Já se passaram duas semanas. Gigantes.
Vou ter que explicar de um jeitinho todo meu e que é o único que eu posso. Está sendo surrealista. Sabe aquelas pinturas dos relógios derretendo? Estou toda Dalí. Salvador me falta. É como se tudo tivesse sido um sonho. Três meses lá na África do Sul e parece que se passou um dia no meu país. Na minha família. Nos meus amigos. As casas, eu penso, como as casas podem estar tão iguais? Não são elas que estão iguais. Sou eu que derreti feito os relógios. Meu tempo lá passou sem horário. Cinco horas de diferença e anos de experiências de uma vez só.


Encolhe e esquece o que ficou pra trás, me falou a Alice. Não essa, a do País das Maravilhas mesmo. E tudo que eu vivi veio de uma vez. Um combo de emoções por dia. Três tapas na cara. Um de raspão que eu não sei por quê veio, mas sei de onde, é machismo todo dia aqui, por quê não ia ser lá? Os outros dois também foram, qualquer dia explico.
Beba-me, esquece, coma-me e cresce agora, dizia a África todos os dias. Eu e os meus bebemos até o fim. Todos os dias bêbados de novidade, nenhum dia de ressaca. Quem tinha tempo pra isso? No Sul o tempo não se arrasta. Toda vez que o sol toca o mar, ele é engolido tão rápido! E a gente parava tudo pra ver esse desastre natural. A gente ia junto e se permitia meia hora de êxtase. Ninguém para pra ver isso em São Paulo? Não tem mar pra engolir o sol. Aqui os engolidos somos nós, eu penso.

Eu e os meus. Eu deles. Eles-eu. A gente junto. Let’s go? Let’s go! Bora. Nós em todo lugar! Lá me lembrou que tudo é benção e que todo tempo é agora. A gente viveu cada minuto, se amou, se conheceu, se esqueceu e olhou pro lado de novo. Eram lembranças em todo lugar, como quem viveu uma vida inteira.

Me sinto enorme. Aquele pedacinho de continente me encheu. De tão grande, o retorno é como se estivesse prestes a explodir, ou a transbordar… E o que fazer agora? Decifra-me ou devoro-te, esfinges que ainda não vi, relógios que vem comigo e as respostas que eu não quero dar.

Como deixei de detestar inglês para me conectar a pessoas incríveis

A verdadeira magia aconteceu a partir da minha escolha. E, ouçam, três meses ainda foram pouco para quantificar tudo que aprendi a amar

Por Thais Fernandes
O que o inglês me proporcionou vai além de qualquer aula
Até três meses atrás eu detestava com muitas das minhas forças a ideia e ouvir e tentar reproduzir a língua inglesa. Desde o colegial, até as aulas em escolas particulares a vontade de pular pela janela quando chegava a hora do curso de inglês era praticamente instantânea. Essa é a história da minha vida desde que alguém teve a brilhante ideia de emitir a frase: “inglês hoje é essencial”. Que logo mudou para “ah não, mas inglês agora já nem diferencial é. É mais do que obrigatório”. E hoje, meus amigos, quando alguém começa com a conversa do mandarim ser a próxima primeira língua… meus olhos lacrimejam.
Mas não choremos ainda. Preciso contar a vocês que minha relação de ódio x ódio com inglês mudou radicalmente nos últimos meses. Talvez isso também te inspire a ter uma DR definitiva com essa língua e resolver suas questões.
Suzanne e Leandra, professoras na Interlink School, e amigas que quero levar para vida! Foto: Thais Fernandes

Não teve fórmula mágica, nem chip instalado no meu cérebro pra me fazer aprender. (Alô programadores, aguardo). Foi o que a gente sabe que funciona: guardar dinheiro e partiu intercâmbio, com todo apoio da Agência Planeta África, que me guiou e indicou as escolas pelas quais passei! Mas não é tão simples. Eu continuaria detestando inglês se tivesse me bitolado na ideia de aprender ‘porque hoje nem diferencial é mais’. Alguém aqui detesta essa pressão escrota tanto quanto eu?

A verdadeira magia aconteceu a partir da minha escolha. E, ouçam, três meses de intercâmbio ainda é pouco para quantificar tudo que a África do Sul me ofereceu! Turquia, Arábia Saudita, Angola, Alemanha, Suíça, Itália, França… e suas próprias 11 línguas! Cape Town muda a vida. E Congo, Zimbábue, Gabão, Zâmbia, Ruanda. Cidade do Cabo é o mundo! Registrei um tiquinho desse convívio na Interlink School, uma pequena e aconchegante escola onde eu conheci alguns destes amigos e aprendi infinitamente sobre respeito, diferenças e línguas:
Foi o mundo que me conectou ao inglês, e não o contrário. Eu precisei inverter o caminho para começar a sentir algum prazer em estudar essa língua. Precisei espremer os olhos e o cérebro para assimilar sotaques tão fortes e diferentes para, então, entender que aprender inglês é construir uma ponte. Não é sobre o mercado de trabalho. É sobre relações humanas, culturais, de afeto e, obviamente, isso inclui trabalho por consequência.

O meu trabalho como jornalista cresceu vertiginosamente nesses meses. Mas antes disso veio a ligação de gente com gente. Ligação. Como eu poderia me sentir tão próxima a alguém da Bélgica se não fosse através do inglês? Como aprender frases de carinho e, na mesma medida, bad words de amigos em outras línguas? Foi o inglês que me permitiu amar meus novos amigos e dizer em cada despedida que a gente ainda vai se ver. Aí o ponto de virada. Essa construção diária me fez deixar de detestá-lo pra, então, agradecer a cada palavrinha, frase, conversa e amizade proporcionada.