Livro + música: Guia dos mochileiros 2 + Edu Sereno 1

Ler O Restaurante no Fim do Universo e ouvir O Pão que o Diabo Amassou

  Entre as misturebas mais requintadas dos últimos tempos, livro + música merece um espaço no meu coração de pedra.
  Um achado numa dessas lojas-de-um-milhão-de-coisas-que-você-não-precisa-mas-ah-vou-levar, o segundo volume da série ‘O Mochileiro das Galáxias’ fez estes olhinhos brilharem *-*. Tente entender, levar esse livro para casa é tipo carregar o Marvin na mochila. Você conhece o Marvin, né? – aquele robô deprimido que parece com você, o Kaio diria, mas te explicaria melhor que eu.

  O Restaurante no Fim do Universo. – só pelo título não gostei, meu pai diria com cara de ‘leitura pouca’. Eu acho uma combinação excelente entre o ridículo e o verdadeiro – mais ou menos como a gente é todos os dias.

  Entre robôs, vidas extra-terrestres, condição humana e naves e viagens universo à fora ou a dentro, o jeito doidão do Douglas Adams narrar ficção científica. Gosto de parecer história de criança – apesar de tripudiar do nosso tamanho ínfimo no meio desse resultado de Big Bang.

  
  Pois Marvin, meu brother – Titãs, é esse Marvin, né? – pensei que talvez você pudesse adicionar uma trilha sonora no nosso dia. Imagine a Coração de Ouro passando pelo Viaduto do Chá. Voo baixo.

  É que essa semana chegou meu CD do Edu Sereno. Achei propício e rolou superbem. São Paulo de boa. Finalmente, uma São Paulo de boa pra mim! De cara, Mantra é um tic tac calmante bem bom pros meus fones de ouvido matutinos. Tipo: 

“um minuto pra calçar o pé/ meia hora pra chegar à sé/ dois minutos pra ferver a água do chá/ quatro anos para graduar/ e em cinco minutos jogar pro ar/ um minuto pra se benzer/
e um piscar de olhos pra recordar.

  Sabe? Não vou nem comentar Agenda – porque, né. Mas além de adorar gente que usa “pra”, e fala de Mantra, acho que a faixa Viaduto do Chá casa bem com o Guia! “Pra você que pensa que eu sou bom moço/ quem sabe amanhã seja um bom dia pra pular do parapeito e se fazer poesia? Ou quem sabe voar? Ou se estatelar?” Tanto faz, concordo.

  E o título do álbum “O Pão que o Diabo Amassou” dá uma equilibrada nas fofuras do restante. Não tô numa fase vomitando arco-íris de graça. Você tá, Marvin? De qualquer forma, o último clipe dele é puro amor. Vale ❤ :

Reportagem e bobagens – Quando pedi um livro e ganhei Quintana

Esse livro que eu já tenho em mãos, desde 6 de junho, não é apenas mais um para minha querida (porém minguada) coleção de poesias.
Se já existe uma beleza única em estar em um lançamento, ao lado da pessoa que deu luz a cada verso, eu sei que isso fica um pouco maior neste caso. Li cada poema com o cuidado de quem um dia pediu emprestado um livro e ganhou de volta um eterno Quintana – recheado com dedicatória e carinho.
Assim, aqui vai minha primária visão de ‘O Que Resta’, de Lausamar Humberto, em matéria publicada no Jornal de Frutal:
Curtido em espera, ‘O Que Resta’ traz 45 poemas e um reencontro
Livro surge depois de anos de distância entre o autor, Lausamar Humberto, e sua própria escrita
Por Thais Fernandes
Primeiro, é preciso esclarecer: aqui não tratamos de fins. O que resta pode ser e é mais do que suficiente para continuar. O título do primeiro livro de poemas de Lausamar Humberto, 40, pode trazer medidas de melancolia, mas não ensina desesperança. A começar pelo retorno do autor ao universo da escrita.

A concisão do livro, que reúne 45 poemas, é fruto de um faro apurado por anos sem escrever um verso. Depois das primeiras experiências na adolescência, Lausamar seguiu seu caminho e deixou que a poesia seguisse o seu. E como nos melhores reencontros, os anos apenas pensando nela, lendo seus grandes entendedores – inclui-se aí Drummond, João Cabral de Melo Neto, Cecília Meireles, Ferreira Gullar, Adélia Prado, Mário Quintana – isso tudo serviu para tornar este retorno coisa séria.

O primeiro poema surgiu há cerca de quatro anos. “Escrevi Poema Cinza e percebi que ainda era capaz de fazer poesia. Estes 45 poemas foram escritos neste período”, conta Lausamar. Entre as grandes referências no gênero, ele não nega sua predileção. “É em Manuel Bandeira que encontro a poesia que mais me toca. Um sentimento tão forte, em versos tão próximos de todos”, revela o autor. Há também espaço para inspirações na nova geração, como Fabrício Carpinejar e Mariana Ianelli.

Toda essa bagagem – presença e ausência – dão o ar da graça em ‘O Que Resta’, que será lançado neste sábado, dia 6, na cafeteria e livraria Coca Café. Com presença do autor, formado em jornalismo e direito e professor no curso de Comunicação Social da UEMG, a manhã será ponto de encontro para os amantes da literatura, em especial àquela nascida e curtida na região. É preciso dizer que nada fala melhor do que a própria obra, portanto, abaixo, alguns aperitivos do que Lausamar nos oferta:

POEMINHA SINCERO

Olha lá!

Se for só por obrigação,

melhor não!


COMPOSIÇÃO INFANTIL

Felicidade é bolha de sabão.

Tão bela,

tão frágil,

tão breve.

E não dá na natureza.

Surge das nossas mãos,

da nossa boca,

do nosso sopro.

Se a queremos,

temos que refazê-la,
e refazê-la,
e refazê-la.


CURRÍCULO
Dizem-me só especialista.
Erram. Sou prendado
em outras faculdades.
Mestre em dores miúdas.
Doutor em solidões avulsas.
Catedrático em saudades.

Opinião – O Som do Pasquim: que trilha!

A delícia da oralidade sem frescuras e da entrevista cara a cara

Acabou meu som. E continua ecoando. Que livro! Quantos nomes… do lado de cá, Jaguar, Ziraldo, Júlio Hungria, Ivan Lessa… de lá, Caetano, Morengueira, Luiz Gonzaga, Raul Seixas (ah, Raulzito!). Caramba! Lupicínio Rodrigues. E eu nunca tinha ouvido esse nome.
– Como não? Mas ele é um dos grandes.

Eu sei, pai. Agora, eu sei.

O Som do Pasquim estimula a vontade de entrevistar cara a cara. No bar, em casa, na redação. Preservar a naturalidade com a qual esses gênios/ cantores/ músicos contam suas mais íntimas convicções e revelam seus mais descuidados preconceitos – Waldick Soriano e Agnaldo Timóteo dando um show de ‘moralidade’ às avessas e machismo. Com ressalva do Agnaldo aos 45 do segundo tempo, mais precisamente em nota anexada a entrevista -.
Mais que isso, estimula aos leitores. A vontade de saber exatamente o que o tal cara disse sobre tal assunto. Resposta limpa, na íntegra. Com comentários – que comentários! Sutileza não tem vez quando é se pode ser claro.

E é Caê naquela naturalidade, e é Chico Buarque na mesa do bar, direto e reto, e é Gonzagão falando do pai, com o filho, Gonzaguinha acompanhando a entrevista!, e é Antonio Carlos Jobim atribuindo seu sucesso musical à bisavó, que “tinha uma musicalidade excepcional”. Ah – suspiros! –  

Livro de cabeceira para apaixonados por música – tem mesmo gente que não é? – e para todo e qualquer inclinado à carreira de perguntador.

p.s: Jaguar, eu senti as dores dos seus foras na entrevista com o Chico. Tamo junto.