E se a gente se refugiasse na gente? Nazaré Paulista e uma manhã na Uniluz

O que é retiro? E de onde precisamos fugir? 
Cheia de questões, ein? Pois é. 
Tempos e amores líquidos… passando pelas nossas mãos. Parece real demais, bauman 
E pra onde se vai quando não suportamos ficar ‘aqui’? Eu saí de São Paulo por dois dias… e fugi de tudo. Desde a cidade até as pessoas. Desde este meu computador, que agora teclo, até os gritos das pessoas dos prédios. O pessoal dos prédios tá cada dia mais insano. Eu estou perdendo a cabeça – quem me conhece vai se perguntar se um dia eu tive ela no lugar. E eu não tinha. Mas parecia okey assim. 


Eu não fui pra um lugar. Eu só saí de outro. -QUÊ-. Sabe quando você sai sem rumo pra caminhar e pensar? É isso. E fui pra uma pessoa. Um amigo. Um par de ouvidos. Ele está em Nazaré Paulista. Foi pra lá que eu fui. 

“O que é jogar ‘fora’? Não existe ‘fora'”, o  me lembrou. É isso. Que louco. Horas e horas de conversas malucas. Músicas sem sentido: -Alô, é o Ed Motta? Isso, não dá pra entender absolutamente NADA daqueles barulhos do começo das músicas. Isso. Aproveita e passa pro Jorge Vercillo. Manda avisar que da parte dele nem a letra salvou… 




Mas, o que ir visitar meu amigo tem a ver com retiro? Primeiro: nunca tente entender meus amigos. Cada um… olha, cada um faz seu próprio mundo. *morta de orgulho*. O Gabriel viveu coisas que levaram ele até a Nazaré Universidade da Luz. Toda vez que vou explicar onde ele está, por que foi pra lá, quanto tempo fica… é uma dificuldade do pessoal assimilar. 
Gabriel é um publicitário-ummilhãodecoisasmaisdoqueisso. Bicho na faculdade. Pessoa ímpar. Descobriu a Uniluz . Quando ele me falou, não lembro de estranhar… parecia um nome que tinha a ver com ele! E tinha mesmo. A Uniluz é tanta coisa quanto o Gabriel. Mas, vamos resumir? Retiro, Autoconhecimento, Convivência, Aprendizado. 

Eles têm mais de 30 anos de história… trabalham com Mindfulness, Comunicação Não-Violenta (crush! <3), ioga… e, de novo, tanto mais! 
Enfim,  foi pra lá ser estudante em um curso de três meses. Ficou para ser residente. Hoje, é o profissional da Comunicação desse lugar… inacreditavelmente movido pelo comunitário. 
 Pães de grãos e australiano! Feitos pelos residentes e alunos da Uniluz. Lá, a alimentação a vegetariana. Os alimentos vem em boa parte da horta. Ou são produzidos lá, como estes pãezinhos. DICA: esse de grãos com um requeijãozim ❤ 
No Campus, não é permitido filmar nem tirar fotos. Viver o momento presente é mais importante. – e necessário, né? Então, só visitando as redes da Uniluz para começar a entender… 
Enfim, meu final de semana foi descanso e muita conversa! Falei sobre ser boa em escutar. E fui tão mais ouvida nestes dias! Grata por ter amigos, por ter uma história para contar. Por saber que não existe retiro melhor que um amigo. Não existe início do auto-conhecimento maior do que respirar e se perceber respirando. 
Valeu, também, Ed Motta, Maurício Manieri, PIO Box e – o incrível – Vercilo. Tomar cerveja, ouvir música nonsense e dançar também são terapia. Anote aqui. Dance por aí… 

PODE PÁ: Emicida comenta Passarinhos, Baiana e Quadris

Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa e, muito, MUITO mais do que poderia caber em um dos enormes títulos que esse cara gosta de dar aos seus discos.

Essa semana o  Alexandre Matias e seu #JornalismoArte convidaram o Emicida para uma aula de música e entrevista em profundidade. A experiência de estar ali valeu – e como! – o registro. Foi muita história e lembranças de Angola, Cabo Verde e Madagascar, países africanos que o rapper visitou para conceituar e produzir o CD.

Entre tudo que ficou na memória, tem o que foi possível gravar para ouvir repetidamente. Ficam aqui alguns comentários sagazes e cheios de conteúdo sobre duas faixas e uma das palavras chaves do SCQPL:


A participação de Caetano Veloso na música Baiana
O ritmo delícia vem logo de cara. Com um pouco de atenção dá para notar as muitas referências às figuras e locais marcantes da Bahia. Mas o que você não esperava é o seguinte:  Lembra quando Caetano deu bronca na equipe para aprender a usar a crase? O Emicida lembra bem.

QUADRIS livres
Cada palavra do consistente título do álbum tem seu significado e trabalho.
Para falar sobre Quadris foi preciso que uma cena lá em outro continente mostrasse o quão livres devem ser para movimentarem-se para onde e como quiserem.

Passarinhos tem muito a ver com o banzo
A música prende pela cantoria dos protagonistas – a passarada – logo no início. Mas a letra mostra que não se trata de pura fofura. É bem mais.
Faixa cheia de delicadeza e sentimento ganhou com a voz de Vanessa da Mata, mas vale ouvir quem são as duas outras mulheres que deram uma força para a música entrar no álbum.

Livro + música: Guia dos mochileiros 2 + Edu Sereno 1

Ler O Restaurante no Fim do Universo e ouvir O Pão que o Diabo Amassou

  Entre as misturebas mais requintadas dos últimos tempos, livro + música merece um espaço no meu coração de pedra.
  Um achado numa dessas lojas-de-um-milhão-de-coisas-que-você-não-precisa-mas-ah-vou-levar, o segundo volume da série ‘O Mochileiro das Galáxias’ fez estes olhinhos brilharem *-*. Tente entender, levar esse livro para casa é tipo carregar o Marvin na mochila. Você conhece o Marvin, né? – aquele robô deprimido que parece com você, o Kaio diria, mas te explicaria melhor que eu.

  O Restaurante no Fim do Universo. – só pelo título não gostei, meu pai diria com cara de ‘leitura pouca’. Eu acho uma combinação excelente entre o ridículo e o verdadeiro – mais ou menos como a gente é todos os dias.

  Entre robôs, vidas extra-terrestres, condição humana e naves e viagens universo à fora ou a dentro, o jeito doidão do Douglas Adams narrar ficção científica. Gosto de parecer história de criança – apesar de tripudiar do nosso tamanho ínfimo no meio desse resultado de Big Bang.

  
  Pois Marvin, meu brother – Titãs, é esse Marvin, né? – pensei que talvez você pudesse adicionar uma trilha sonora no nosso dia. Imagine a Coração de Ouro passando pelo Viaduto do Chá. Voo baixo.

  É que essa semana chegou meu CD do Edu Sereno. Achei propício e rolou superbem. São Paulo de boa. Finalmente, uma São Paulo de boa pra mim! De cara, Mantra é um tic tac calmante bem bom pros meus fones de ouvido matutinos. Tipo: 

“um minuto pra calçar o pé/ meia hora pra chegar à sé/ dois minutos pra ferver a água do chá/ quatro anos para graduar/ e em cinco minutos jogar pro ar/ um minuto pra se benzer/
e um piscar de olhos pra recordar.

  Sabe? Não vou nem comentar Agenda – porque, né. Mas além de adorar gente que usa “pra”, e fala de Mantra, acho que a faixa Viaduto do Chá casa bem com o Guia! “Pra você que pensa que eu sou bom moço/ quem sabe amanhã seja um bom dia pra pular do parapeito e se fazer poesia? Ou quem sabe voar? Ou se estatelar?” Tanto faz, concordo.

  E o título do álbum “O Pão que o Diabo Amassou” dá uma equilibrada nas fofuras do restante. Não tô numa fase vomitando arco-íris de graça. Você tá, Marvin? De qualquer forma, o último clipe dele é puro amor. Vale ❤ :

Opinião – De Daniela Mercury a Emicida: os que não estão surdos

No meio de todo esse discurso de ódio, quem ainda escuta?

Só não ouve quem não quer.
“A história do Brasil fez o brasileiro ter medo de macumba. Macumba é uma coisa boa! É uma oferenda, assim como em tantas outras religiões”. 

Quando Daniela Mercury falou isso, nesse sábado gelado, foi só um motivo a mais para eu ter certeza de que valia a pena estar ali. Em meio a tambores e dança solta de influência deliciosa da África, como não jogar na nossa cara o que nós somos?

Domingo, 21/6, Palco Júlio Prestes na Virada Cultural 2015 – SP.
Foto: Ênio César

A gente dá ouvidos para uma minoria – que se acha maioria – mas o que eles tem? Holofotes. Muito mais do que esses milhões de ‘diferentes’. As estatísticas deles não levam em consideração o Brasil. Essa sua “”família””, pode ficar com ela, ela não tem nada de minha.
Para cada discurso de ódio que nós temos ouvido, quantas vozes nós temos negligenciado?
Mais do que pelas músicas, essa Virada Cultural 2015valeu muito pelos que ainda estão ouvindo – Ah, Roberto de tantos tempos/ Chico Science de sempre, eles não estão surdos, porque sim, eles quiseram ouvir! E mais do que ouvir, em tempos como esse é delirante que alguém diga!
Emicida, meu quiridu! Quantas coisas você disse lá e que – pelo amor de Deus, se eles não ouviram é porque não quiseram, todos estão surdos – precisam ser ditas todos os dias? A gente precisa gritar.
“tempo doido, época feia
O mundo quer salvar o jovem
Mas não fala de escola?
Só fala de cadeia”
Eu sei, dá vontade de transcrever o discurso inteiro. Mas quer saber? Se a voz é dele, deixa que ele te conta:

Opinião – O Som do Pasquim: que trilha!

A delícia da oralidade sem frescuras e da entrevista cara a cara

Acabou meu som. E continua ecoando. Que livro! Quantos nomes… do lado de cá, Jaguar, Ziraldo, Júlio Hungria, Ivan Lessa… de lá, Caetano, Morengueira, Luiz Gonzaga, Raul Seixas (ah, Raulzito!). Caramba! Lupicínio Rodrigues. E eu nunca tinha ouvido esse nome.
– Como não? Mas ele é um dos grandes.

Eu sei, pai. Agora, eu sei.

O Som do Pasquim estimula a vontade de entrevistar cara a cara. No bar, em casa, na redação. Preservar a naturalidade com a qual esses gênios/ cantores/ músicos contam suas mais íntimas convicções e revelam seus mais descuidados preconceitos – Waldick Soriano e Agnaldo Timóteo dando um show de ‘moralidade’ às avessas e machismo. Com ressalva do Agnaldo aos 45 do segundo tempo, mais precisamente em nota anexada a entrevista -.
Mais que isso, estimula aos leitores. A vontade de saber exatamente o que o tal cara disse sobre tal assunto. Resposta limpa, na íntegra. Com comentários – que comentários! Sutileza não tem vez quando é se pode ser claro.

E é Caê naquela naturalidade, e é Chico Buarque na mesa do bar, direto e reto, e é Gonzagão falando do pai, com o filho, Gonzaguinha acompanhando a entrevista!, e é Antonio Carlos Jobim atribuindo seu sucesso musical à bisavó, que “tinha uma musicalidade excepcional”. Ah – suspiros! –  

Livro de cabeceira para apaixonados por música – tem mesmo gente que não é? – e para todo e qualquer inclinado à carreira de perguntador.

p.s: Jaguar, eu senti as dores dos seus foras na entrevista com o Chico. Tamo junto.