foto: Facebook Mari Tavares
A Revista Panorâmica foi produzida durante o curso de Jornalismo, na UEMG, neste último semestre de 2013. O Perfil produzido foi o da cantora Mariana Tavares, abaixo o resultado desse trabalho:
Música na veia e pé na estrada
Com 4 capitais e 20 anos de carreira no currículo, Mariana Tavares não para
“Nasci em Manaus, mas acho que não tenho nenhuma foto na floresta!”, comenta com humor minha vizinha de porta. Eu não me lembrava que ela havia nascido em Manaus. Como é que pode? Tão carioca que é, ninguém lhe daria outra naturalidade que não a cidade maravilhosa. No entanto, pasmem, apesar do sotaque que transforma “isqueiro” em “chiqueiro”, Mariana Tavares residiu por apenas um ano no Rio de Janeiro, capital.
Aos 24 anos, ela já morou em cinco cidades, entre elas quatro capitais e uma interiorana. No estado do Amazonas, apenas seu primeiro um ano e meio de vida foi desfrutado. “Eu era bem pequena, não tenho muitas recordações.” Mas, dentre as poucas, uma se destaca: “Minha mãe tinha um macaco! Era desses pequenos, ela adorava. Os vizinhos, se não me engano, também tinham um macaco de estimação.” Peculiaridades de uma cidade que, segundo Mariana, no geral era bem comum, como qualquer cidade grande, inclusive com um zoológico local.
Alguns pontos de Manaus também ficaram na memória como o Museu e o Teatro. “Na época do Natal, nós íamos ao Teatro Municipal, onde um coral de crianças cantava nas sacadas.” É uma das primeiras recordações musicais da pequena menina que viria a se interessar cada vez mais por esta arte.
Saindo de Manaus, foi a vez de se mudar para Curitiba, no Paraná. A época de cidade fria também durou pouco. Em apenas um ano, Mari e os pais já se mudavam novamente, partindo para o interior do estado do Rio de Janeiro. Em uma cidade chamada Valença, a família esteve mais próxima, com a presença dos avós, que já residiam no local. “Morava perto da casa dos meus avós, foi a cidade onde morei por mais tempo”, relembra.
Em Valença, aos 4 anos, o contato com o universo musical se intensificou. Como boa parte dos artistas, Mari começou a cantar na igreja, além de ingressar no coral da cidade. Também lá surgiu a primeira banda, ainda que mais por brincadeira, entre os amigos.
Mas a vida cigana não abandou a família de vez. De volta a uma capital, estado novo. Brasília se tornou uma cidade crucial na vida de Mariana. A esperada apresentação à sociedade, tradicionalmente feita aos 15 anos, teve que esperar. A mudança para a capital nacional ocorreu quando Mari tinha 14 anos e estava prestes a completar os 15. “Nem quis fazer festa, porque ainda não conhecia ninguém na cidade”, relembra. Mas não demorou muito para a recém-chegada fazer amigos e se sentir em casa. Em Brasília, Mariana passou boa parte de sua adolescência e completou o ensino médio. “Lá eu não fiz amigos, fiz irmãos. A gente sempre marca de se encontrar e eu vou pra casa deles. É um lugar que eu sei que sempre vou ter onde ficar, com quem contar”, lembra, com saudades.
Depois da época do Ensino Médio e de ter formado duas bandas em Brasília, Mari morou um tempo com os avós em Valença e ufa! Finalmente veio a mudança para a cidade do Rio de Janeiro. A época do cursinho, como quase sempre acontece, foi inesquecível para a cantora. Da temporada fluminense de um ano saiu o lugar mais inusitado onde Mariana já cantou. Em um salão de beleza, em meio a cortes de cabelo, manicures e chapinhas, a estudante tocava violão e cantava para as clientes. “Quando me convidaram eu não acreditei. Não entendi como podia fazer música lá, pensei que o barulho do secador fosse atrapalhar, mas no fim deu tudo certo, o pessoal gostava muito.” Apesar de ter acertado na mosca em convidar músicos para se apresentarem no salão às quintas e sextas-feiras, Mari acredita que o contratante não soube valorizar o trabalho deles. “O cara que tocava nas quintas tinha mais experiência, mas a gente ganhava muito pouco… e o salão lotava nos dias das apresentações.”
No fim de um ano no Rio, ela já tinha conquistado experiência musical e lugar cativo no coração dos cariocas. “Você cativa muitos amigos”, revela Mari sobre a época intensa do cursinho, vivência que a trouxe direto para o triângulo mineiro, onde cursa Publicidade e Propaganda na UEMG.
Hoje, em Frutal, prestes a defender seu TCC perante uma banca de publicitários e professores prontos para testar os quatro anos de aprendizado, Mari se divide entre a publicidade e a música. No dia a dia quase não se separa do amigo Lucas Miranda, com quem divide sonhos e trabalhos na banda Cassino Queen. Nossa pequena Frutal é palco de ensaios e criações da dupla que começou a realizar shows em 2011.
Segundo eles mesmos se descrevem: “A Cassino Queen é uma banda de Noise Rock que carrega elementos eletrônicos e psicodélicos em suas composições, buscando sempre novas sonoridades carregadas de distorção”. A música produzida pela dupla de fato não se encaixa nos padrões esperados pela maioria. Mas isso não é impedimento algum para que a Cassino Queen tenha conquistado fãs das mais diversas cidades e caído na estrada!
A divulgação via internet é apenas um apoio ao maior veículo de ampliação de público da banda: o boca a boca. “A maioria dos locais que nos convidou para apresentações, ficou sabendo através de um amigo que curtiu nosso show. Hoje em dia, é preciso ter alguém que leve seu nome e diga que vale a pena.”
Em apenas dois anos de banda, a dupla já visitou oito cidades levando sua sonoridade e conhecendo pessoas e lugares. Para Mari, o diferencial de sua banda é o ao vivo. “Nós procuramos fazer coisas diferentes em cada show. Para fazer a noite de quem nos assiste divertida, um momento para ficar marcado. Por produzirmos música eletrônica podemos deixar sempre rolando um som, mesmo entre uma música e outra, o som nunca para”, explica.
Em Guaíra- SP, Mari conta que a experiência com o público superou as expectativas. “Foi incrível, muito receptivo. Trataram a gente como astros. Arrancaram meu cabelo, loucura de fã.” Tudo aconteceu durante o festival Grito Rock e eles repetiram a dose na cidade mais tarde, no ECAL – Encontro Cultural de Arte Livre. Mas na vida de músico quase nada é turismo.
A Cassino Queen costuma viajar com carro particular e quase sempre vai direto ao local do show e de lá de volta para Frutal. “Sempre gostei de viajar, é uma sensação ótima. Mas antes de começarmos a viajar com a banda, eu sempre pensava ‘nossa, que demais tocar fora e tals’. Hoje, a gente vê que precisa de muita força de vontade.”
Depois de diversas viagens em função dos shows, e quase sempre num bate e volta para conseguir conciliar com a faculdade, Mari procura deixar claro o valor de seu trabalho. “É uma batalha. Muitas pessoas deixam de dar valor. É como se fosse um som ambiente”, afirma ela sobre os contratantes e público que não apoiam o artista.
Apesar das dificuldades, a musicista almeja levar a Cassino Queen para muitos lugares, inclusive fora do país. Sobre o circuito de bandas conhecidas de Mari, muitas vão para países vizinhos, como a Argentina. “Você tem que acreditar muito no que você faz”, conclui Mari, que segue com a América Latina na mira e de malas prontas para os destinos que surgirem.
Acima, a versão feita pela Cassino Queen da música Black Balloon da banda The Kills.


