Francisco da Sé

Mas, Francisco… Quem carrega a responsabilidade pelas balas que te atingiram? Minha outra dúvida é se isso importa agora.
Mas quem, Francisco, fica para viver com o mais genuíno orgulho por ter te conhecido?
Em imagens exclusivas o Datena abre o mar vermelho: um lado clamando inferno a Luis, outro clamando louvor a PM. E você, Francisco, no meio disso tudo. Desse vermelho que te escorre o peito, Sé abaixo – olha lá ele, morto.
Quem oferece ombro ao Povo da Rua que quer chorar você? Sua ausência, essa fica para as Mães de Maio. Fica, também, aqui comigo, mas não se avexe em ficar mais por aqui, Francisco. Isso passa. Para alguém que todos os dias vê o mar se abrir na esquina de casa – quando um igual a você me olha -, então alguém que vê isso todos os dias não pode mais te carregar pra sempre, Francisco.
Então, como eu sempre tenho medo de pensar, é o fim para você. E, pela lógica, pra mim também. Fim de linha para nós, Francisco. Sorte a minha que gente igual a você, faz parecer que ainda tem mais trilho pela frente.
*a Francisco Erasmo Rodrigues de Lima.
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Livro + música: Guia dos mochileiros 2 + Edu Sereno 1

Ler O Restaurante no Fim do Universo e ouvir O Pão que o Diabo Amassou

  Entre as misturebas mais requintadas dos últimos tempos, livro + música merece um espaço no meu coração de pedra.
  Um achado numa dessas lojas-de-um-milhão-de-coisas-que-você-não-precisa-mas-ah-vou-levar, o segundo volume da série ‘O Mochileiro das Galáxias’ fez estes olhinhos brilharem *-*. Tente entender, levar esse livro para casa é tipo carregar o Marvin na mochila. Você conhece o Marvin, né? – aquele robô deprimido que parece com você, o Kaio diria, mas te explicaria melhor que eu.

  O Restaurante no Fim do Universo. – só pelo título não gostei, meu pai diria com cara de ‘leitura pouca’. Eu acho uma combinação excelente entre o ridículo e o verdadeiro – mais ou menos como a gente é todos os dias.

  Entre robôs, vidas extra-terrestres, condição humana e naves e viagens universo à fora ou a dentro, o jeito doidão do Douglas Adams narrar ficção científica. Gosto de parecer história de criança – apesar de tripudiar do nosso tamanho ínfimo no meio desse resultado de Big Bang.

  
  Pois Marvin, meu brother – Titãs, é esse Marvin, né? – pensei que talvez você pudesse adicionar uma trilha sonora no nosso dia. Imagine a Coração de Ouro passando pelo Viaduto do Chá. Voo baixo.

  É que essa semana chegou meu CD do Edu Sereno. Achei propício e rolou superbem. São Paulo de boa. Finalmente, uma São Paulo de boa pra mim! De cara, Mantra é um tic tac calmante bem bom pros meus fones de ouvido matutinos. Tipo: 

“um minuto pra calçar o pé/ meia hora pra chegar à sé/ dois minutos pra ferver a água do chá/ quatro anos para graduar/ e em cinco minutos jogar pro ar/ um minuto pra se benzer/
e um piscar de olhos pra recordar.

  Sabe? Não vou nem comentar Agenda – porque, né. Mas além de adorar gente que usa “pra”, e fala de Mantra, acho que a faixa Viaduto do Chá casa bem com o Guia! “Pra você que pensa que eu sou bom moço/ quem sabe amanhã seja um bom dia pra pular do parapeito e se fazer poesia? Ou quem sabe voar? Ou se estatelar?” Tanto faz, concordo.

  E o título do álbum “O Pão que o Diabo Amassou” dá uma equilibrada nas fofuras do restante. Não tô numa fase vomitando arco-íris de graça. Você tá, Marvin? De qualquer forma, o último clipe dele é puro amor. Vale ❤ :

Opinião – De Daniela Mercury a Emicida: os que não estão surdos

No meio de todo esse discurso de ódio, quem ainda escuta?

Só não ouve quem não quer.
“A história do Brasil fez o brasileiro ter medo de macumba. Macumba é uma coisa boa! É uma oferenda, assim como em tantas outras religiões”. 

Quando Daniela Mercury falou isso, nesse sábado gelado, foi só um motivo a mais para eu ter certeza de que valia a pena estar ali. Em meio a tambores e dança solta de influência deliciosa da África, como não jogar na nossa cara o que nós somos?

Domingo, 21/6, Palco Júlio Prestes na Virada Cultural 2015 – SP.
Foto: Ênio César

A gente dá ouvidos para uma minoria – que se acha maioria – mas o que eles tem? Holofotes. Muito mais do que esses milhões de ‘diferentes’. As estatísticas deles não levam em consideração o Brasil. Essa sua “”família””, pode ficar com ela, ela não tem nada de minha.
Para cada discurso de ódio que nós temos ouvido, quantas vozes nós temos negligenciado?
Mais do que pelas músicas, essa Virada Cultural 2015valeu muito pelos que ainda estão ouvindo – Ah, Roberto de tantos tempos/ Chico Science de sempre, eles não estão surdos, porque sim, eles quiseram ouvir! E mais do que ouvir, em tempos como esse é delirante que alguém diga!
Emicida, meu quiridu! Quantas coisas você disse lá e que – pelo amor de Deus, se eles não ouviram é porque não quiseram, todos estão surdos – precisam ser ditas todos os dias? A gente precisa gritar.
“tempo doido, época feia
O mundo quer salvar o jovem
Mas não fala de escola?
Só fala de cadeia”
Eu sei, dá vontade de transcrever o discurso inteiro. Mas quer saber? Se a voz é dele, deixa que ele te conta:

Opinião – Paulo Múltiplo Leminski (a exposição, a obra e o bigode)

Debaixo dos fios daquele bigode, toda poesia. O que me agrada, de cara, em Leminski é a sua caricata figura. Bigodudo, nem muito novo, nem muito velho. A meia idade de Paulo é o que me vem à mente quando ouço “Leminski”. Um dos autores com menos rugas dos quais consigo me lembrar, – e não há problema nenhum nos nossos septuagenários – acho que foi com Leminski que comecei a entender que o autor é real, ele é gente. E ele pode, vejam só!, ser um alguém jovem e, se a gente e ele tiver sorte, pode até estar vivo.

Esses dias fui à exposição ‘Múltiplo Leminski’, aqui em SP. A curadoria é de Alice Ruiz e das filhas do casal, Aurea e Estrela. Um detalhe que, sim, faz toda diferença. Não conheço bem a obra da Alice, também escritora, tão pouco a vida da Aurea e da Estrela. Mas, olha, me senti em casa.. Na casa deles, vendo um álbum de família em forma de poemas, recortes de jornal, móveis e livros do meia Paulo.
Os rabiscos, as interações e os móveis de madeira me fizeram ter uma noção mais concreta da inquietudade de Leminski. É como se cada um desses elementos retratasse um pedaço seu: rabisco – haicai, móveis – concretude, interações – pop. Esse mix ambulante e com bigode é puro ponto de exclamação pra mim!

Onde já se viu um intelectual do naipe dele, poliglota, escrevendo “Tudo que li/ me irrita / quando ouço / Rita Lee”?Me irrita também, Paulo!, tenho vontade de gritar, sempre que relembro esse.

E minutos depois, a calmaria de enxergar essa condição humana.
“Teses sínteses / Antíteses / Vê bem onde pises / Pode ser meu coração”

É como se, entre os móveis da sua casa, ele me abrisse um diário: não importa por onde andes, é sempre um coração no caminho, me confidencia esse danado.

Alguém com uma cara entre pai dos anos 80 e hippie aposentado… e tão genial! E tão ao alcance. Adoro Leminski especialmente por ter sido um dos primeiros a desarmar minha estúpida tese de adolescência, a de que autor era um imortal-morto com cadeira em alguma distante Academia de Letras. O bigodudo viveu com tudo! E é isso, Alice, Aurea e Estrela, não há meio melhor de lembra-lo. Paulo muito “Múltiplo Leminski”.