Moquinha: um mini grão

Mini café.

Cê já ouviu falar de moquinha? Moca! Pros gringos ou quase: peaberry.

São cafés pequenos. Redondos. E, antes da torra, eles são uma só semente com o fruto todo dela! 
A diferença é que, geralmente, cada fruto de café tem 2 sementes. E aí? O moca, com uma só, saí assim: pequeno.

Como se diz no mercado profissional, peneira abaixo de 13. 
É! Café passa por uma seleção em várias ‘peneiras’ mesmo. Cada uma de um tamanho. E o moquinha caía em todas. Não ficava nem na 13 – a menorzinha.



Já teve fama ruim por conta disso… “Café miúdo? Não pode ter valor”, pensavam.
Mas agora tem muitos apaixonados por ele! Por ser menor e com uma semente só, esse grãozinho reuniria mais doçura. Será?

Nesse trabalho de pós-graduação a Renata Cássia chegou nessa conclusão ó:
“No teste de xícara realizado, observou-se que o grão chato apresentou melhor
avaliação global de bebida e o grão moca apresentou melhor pontuação com relação à doçura”.


Então, quer doçura? Vem de moquinha! Um bem gostoso e mais fácil de encontrar é o da Unique Cafés:

Doce ou não, só seu paladar pode te dizer. Bora provar? Conta lá no @blogexperimental.

Kamili Coffee direto da Long Street, em Cidade do Cabo – África do Sul

Vem dar rolê para conhecer as lojas e prédios do centro de Cape Town?
Aproveita. Por ali está a Kamili Coffee. Essa cafeteria fica em avenida movimentada! Ou melhor, na esquina da Long Street com a Shortmarket Street. Inclusive, a Long Street, caso você seja das baladas, deve estar no seu roteiro! Mas, voltando aos cafés…
Se liga na plaquinha: Sim, eles também torram os próprios grãos ❤
O que tem lá? Dois blends da casa! Uma mistura inclui cafés de diferentes países da África, outra une grãos da Etiópia e da Colômbia. Me gusta! E também rolam origens únicas. Tem de Honduras ao Brasil!

O que eu mais curti foi a conexão que eles tem com o próprio continente. ‘Kamili’, inclusive, significa perfeição na língua do povo Swahili. É uma homenagem a uma das línguas africanas mais conhecidas e estudadas do grupo bantu, utilizada na maior parte da África do leste e região central do continente. Além da vibe boa dos atendentes! 
Por lá, você também encontra lanchinhos e pacotes de café para trazer para casa! A Kamili tem, ainda outra unidade em Cape Town. Delícia de parada para o café da tarde!

Onde
29 Shortmarket St & Long St, Cape Town City Centre, Cape Town, 8000
e
48 Harrington St, Zonnebloem, Cape Town, 7925

Audrey Hepburn e Salvador Dalí te encaram na exposição de Irving Penn: centenário

Natureza morta, fotografias em preto e branco mais vivas que muitas que já vi por aí mas o que mais me chamou a atenção na exposição que visitei no IMS – Paulista? As caras que me olhavam no fundo dos olhos. Os retratos de Irving Penn vão te encarar. Eu sei disso, porque me encararam. Rindo-se. Sérios. Profundamente...

Audrey Hepburn – sorrindo e conversando com com você só com os olhos.


Não se perca: a entrada para a exposição fica no terceiro andar! Ao final? Você desce as escadas e continua se encantando no segundo andar! Giro ao contrário. 😛 É tanto foto que são divididas em 12 eixos temáticos. Em cada seção, a curadoria destaca o processo de experimentação que permeia a produção do artista. 

RETRATOS QUE TE ENCARAM 
Em 1947, sob encomenda da Vogue, Penn começou a fotografar intelectuais que viviam em Nova York. Esses retratos, presentes na segunda sala da mostra, foram feitos em um cenário pouco convencional: um canto estreito, formado entre dois tapumes. Isso, pra mim, foi incrivel de ver! Como a gente é diferente e igual enquanto humano. Vulnerável naquele cantinho.

Acuados nesse pequeno espaço, os modelos hesitavam, mas Penn os estimulava a improvisar, “sabendo que acabariam se revelando ao tentarem acomodar seus corpos, egos e expectativas à estrutura”, como afirma Maria Hambourg. Nessa famosa série, o fotógrafo retratou nomes como Igor Stravinsky, Marcel Duchamp, Alfred Hitchcock e Truman Capote. E tem os inconfundíveis Salvador Dalí e Audrey Hepburn (que não resisti, fotografei, e tá ali em cima). 

Outro cenário, nos mesmos tons, era esse fundo aberto. E uma luz incrível que só fotgógrafo sabe arrumar!

Pedacinho interativo! Aqui, um fundo com luz simulando o que Irving usava em seus retratos…
Ao fotografar, Penn dedicava grande atenção aos detalhes, preferindo trabalhar no estúdio, onde se sentia mais confortável para criar. 

QUEM RESISTE TESTAR ESSA LUZ???


A exposição Irving Penn: centenário começou agora em 21 de agosto, e já foi exibida pela primeira vez no Metropolitan Museum of Art (The Met)! A mostra faz um panorama da produção do fotógrafo norte-americano, reunindo mais de 230 fotografias. Irving Penn (1917-2009), além de trabalhos inovadores no campo da moda, produziu retratos, naturezas-mortas, nus femininos, peças publicitárias, entre outras obras. A curadoria é de Maria Morris Hambourg, curadora independente, e de Jeff L. Rosenheim, curador do departamento de fotografia do Met. 

E tem tanto mais! Cola lá. Entrada gratuita aos sábados! 

Se liga no vídeo, produzido pelo IMS Paulista, sobre essa exposição:

Deixe café pago para o próximo na Motherland Coffee – na África do Sul

Por Thais Fernandes 

P
ara aquecer meu coração nesse friozinho… comecei a me lembrar das aventuras em Cape Town, um ano atrás. Deu saudade! Em Cidade do Cabo eu conheci o mundo! Como é que sairia de lá sem conhecer os cafés? Hora de colocar esses grãozinhos para trabalhar a meu favor. Falar inflês e viver! E, fora que já tinha dado aquele café solúvel das escolas, casas... OMG. 


Assuntando com os sul-africanos. Upando o nível de cafeína no organismo. Assim meus dias passaram deliciosamente. E aqui vão minhas lembranças mais quentinhas das melhores cafeterias que visitei na África do Sul. Começando por essa:
  

Motherland Coffee Company – share your love! 

Lembra que Cidade do Cabo é conhecida como Mother City? ❤ Com muita fofura, a Motherland Coffee Company se apropriou do apelido. E criou uma cafeteria no centro da cidade. Clima de inverno lá fora – quentinho lá dentro. Olha só essa belezinha.

Isso aí. Você podia deixar um café pago para o próximo + recadinho compartilhando amor. Muito motherland, sim. E os cafés? Espresso bem tirado pra mim. Cappuccino pra Alice, com direito a latte arte de coração. 

Love this place: 

Como dizia uma das paredes do MotherLand, Africa is the future”. I totally agree!

Onde fica? Mandela Rhodes PlaceWale St & Georges Mall, Cape Town City Centre, Cape Town, 8000, África do Sul 

Al Janiah é Palestina Livre cultural, gastronômica e viva!

Se trata de um mundo com fronteiras. Refugiados para quem? Linhas. Que não existem. A linha do equador existe? E o trópico de capricórnio? Nossas limitações são imaginárias.

Eu queria mergulhar no universo dos outros. É tudo coisa da nossa cabeça. Então, conheci o Abraço Cultural – dele, eu falo mais em outro post! por causa disso, eu cheguei até a Al Janiah. 
No muro da Rua Rui Barbosa, 269, um grito: Palestina Livre! 

Palestina livre! Foto: Thais Fernandes

Inventadas nossas línguas, árabe é desenho. Que desenho mais lindo! Logo na porta desse restaurante-resistência, o moço anota meu nome. 
-THAIS, digo, com H.

ثيس  , ele anota
Surpresa desde a porta. Aprendendo. Ele indica as mesas. Lá dentro, tem palco. Às vezes música árabe. No que eu fui? Cantoria Cubana. Antropofagia. A liberdade e diversidade ali é incrível.


No cardápio, muitas comidas típicas. Minha professora e amiga síria, Nour, indica! É referência mesmo do que é comida árabe tradicional. Comidinha da vez: FALAFEL(R$17) Chega a salivar… bom demais! Bolinhos para pedir com os amigos e dividir como aperitivo. (ou comer todos, o que dá vontade). Também por estarmos em turma, teve espaço para Prato Pastas (25), Prato de Taouk (22) eeeee….

Bebidas, amamos: Palestina Libre – tem arak. Essa bebida é tradicional árabe/plaestina. Tem hortelã, pimenta biquinho e um toque de cachaça artesanal. Vale bem, é álcoolica, mas suave! Olha só a cara dele:




Alguns dos nomes também são resistência. Retorno a Haifa (22), por exemplo, cita o nome de uma antiga cidade estratégica de Israel. O drink leva vodka, miturada ao chá o limão.

No final? Mesa com doces. Coloridos. De encher os olhos. Os donos da banca, falantes, contam tudo. 
Doces árabes. Mesa exposta na saída do Al Janiah / Foto: Thais Fernandes
Só sei que ‘refugiado’ é uma palavra inventada. Num mundo onde estamos pra lá e pra cá. Imigrantes e emigrantes todos os dias. Nesse corre-corre, o Al Janiah é refúgio. Encanto. Comidas, bebidas. Pessoas! 


BÔNUS: Do lado de fora, uma biblioteca móvel fica estacionada. Estacionada? Movimentando, cheia de livros lado B. Vale! 

E se a gente se refugiasse na gente? Nazaré Paulista e uma manhã na Uniluz

O que é retiro? E de onde precisamos fugir? 
Cheia de questões, ein? Pois é. 
Tempos e amores líquidos… passando pelas nossas mãos. Parece real demais, bauman 
E pra onde se vai quando não suportamos ficar ‘aqui’? Eu saí de São Paulo por dois dias… e fugi de tudo. Desde a cidade até as pessoas. Desde este meu computador, que agora teclo, até os gritos das pessoas dos prédios. O pessoal dos prédios tá cada dia mais insano. Eu estou perdendo a cabeça – quem me conhece vai se perguntar se um dia eu tive ela no lugar. E eu não tinha. Mas parecia okey assim. 


Eu não fui pra um lugar. Eu só saí de outro. -QUÊ-. Sabe quando você sai sem rumo pra caminhar e pensar? É isso. E fui pra uma pessoa. Um amigo. Um par de ouvidos. Ele está em Nazaré Paulista. Foi pra lá que eu fui. 

“O que é jogar ‘fora’? Não existe ‘fora'”, o  me lembrou. É isso. Que louco. Horas e horas de conversas malucas. Músicas sem sentido: -Alô, é o Ed Motta? Isso, não dá pra entender absolutamente NADA daqueles barulhos do começo das músicas. Isso. Aproveita e passa pro Jorge Vercillo. Manda avisar que da parte dele nem a letra salvou… 




Mas, o que ir visitar meu amigo tem a ver com retiro? Primeiro: nunca tente entender meus amigos. Cada um… olha, cada um faz seu próprio mundo. *morta de orgulho*. O Gabriel viveu coisas que levaram ele até a Nazaré Universidade da Luz. Toda vez que vou explicar onde ele está, por que foi pra lá, quanto tempo fica… é uma dificuldade do pessoal assimilar. 
Gabriel é um publicitário-ummilhãodecoisasmaisdoqueisso. Bicho na faculdade. Pessoa ímpar. Descobriu a Uniluz . Quando ele me falou, não lembro de estranhar… parecia um nome que tinha a ver com ele! E tinha mesmo. A Uniluz é tanta coisa quanto o Gabriel. Mas, vamos resumir? Retiro, Autoconhecimento, Convivência, Aprendizado. 

Eles têm mais de 30 anos de história… trabalham com Mindfulness, Comunicação Não-Violenta (crush! <3), ioga… e, de novo, tanto mais! 
Enfim,  foi pra lá ser estudante em um curso de três meses. Ficou para ser residente. Hoje, é o profissional da Comunicação desse lugar… inacreditavelmente movido pelo comunitário. 
 Pães de grãos e australiano! Feitos pelos residentes e alunos da Uniluz. Lá, a alimentação a vegetariana. Os alimentos vem em boa parte da horta. Ou são produzidos lá, como estes pãezinhos. DICA: esse de grãos com um requeijãozim ❤ 
No Campus, não é permitido filmar nem tirar fotos. Viver o momento presente é mais importante. – e necessário, né? Então, só visitando as redes da Uniluz para começar a entender… 
Enfim, meu final de semana foi descanso e muita conversa! Falei sobre ser boa em escutar. E fui tão mais ouvida nestes dias! Grata por ter amigos, por ter uma história para contar. Por saber que não existe retiro melhor que um amigo. Não existe início do auto-conhecimento maior do que respirar e se perceber respirando. 
Valeu, também, Ed Motta, Maurício Manieri, PIO Box e – o incrível – Vercilo. Tomar cerveja, ouvir música nonsense e dançar também são terapia. Anote aqui. Dance por aí… 

"Obrigado por emprestar as orelhas"

Obrigado por emprestar as orelhas 
Valeu pela terapia de hoje. 
Ouvi essas duas frases. Na mesma semana! …. e aquela velha dúvida... que barco é esse em que viemos parar?  

Como você se sente quando alguém te escuta?



Corta pro Titanic. Balada grande. Falação. Barco afundando. Todo mundo gritando. Correria. A banda tocando (?). Todo mundo no mesmo lugar. Falando ao-mesmo-tempo. Ninguém ouve ninguém? 
Eein. Nem de balada barulhenta eu gosto. 
Minha dificuldade de falar trouxe um presente: Ouvir. Enquanto a gente naufraga, posso ouvir os pedidos de socorro. Parece presente de grego olhando assim. 
O que a minha escuta pode fazer? Nada. É passivo. E eu pensava que era besteira. 
Umas semanas antes, era eu falando. Fiquei com a sensação que não adiantaria falar. ‘Que besteira’, eu mesma gritava lá dentro. 
Mas, tenho me auto analisado. Depois daquela semana, veio um pouco mais de calma. Não de calmaria, diga-se de passagem. Mas de calma nos meus próprios gritos… talvez porque alguém escutou. Fiquei com vontade de abraçar o Júnior. A Vanessa e a Aline (inclusive mó legal falar mesmo quando não é pra você ouvir). 
Então, continuei escutando. 
O meu amigo da portaria falou uma hora a fio… depois me mandou dormir. 
“Vai dormir, Thais. Obrigado por emprestar as orelhas”. 
A moça do uber, todo nosso trajeto. Uns 25 minutos. 
“Olha, valeu a terapia hoje. Tudo que eu ouço todos os dias, você escutou de volta agora”. 
Eu fui dormir boiando nessa sensação de… ‘por que as pessoas estão agradecendo?’. Eu, literalmente, não fiz nada. A cada 10 palavras, minha resposta era com os olhos. Não eram histórias de se opinar. Mas de ouvir mesmo. Não precisei de ação ativa. 
Fui pro meu dicionário ostentação – comprado naqueles trem do metrô – e aí… 
Escutar (verbo) 
  • 1transitivo direto 
  • estar consciente do que está ouvindo. 
  • “conversando na praia, ouvia o mar, mas não o escutava” 
  • 2transitivo direto 
  • ficar atento para ouvir; dar atenção a. 
  • “escutava com paciência aquelas queixas” 
… entendi o tamanho dessa não-ação. Não falar. Só escutar não é ‘só’. É o que a gente precisa de nós. 
Tenho pra mim que não precisamos de coachs pra isso. É um hábito que se cria. Pra isso, trabalho, disciplina e – aí sim – ferramentas podem ajudarMas, escutar não tem hora marcada. Tem? A gente não precisa transformar mais uma coisa humana em mecanizada, precisa? 
Um abraço pro meu amigo da portaria e pra motorista do uber. 
Escutar vocês foi maravilhoso. E o que vocês falaram no fim? Foi generoso. Me fez pensar. Abraçar a escuta. E, por que não, a minha própria fala? Quando for a hora. A hora que for.  

Falando em museus… só o humor de Guerrilla Girls salva

Me sinto presa num eterno quadro de EXPECTATIVA x REALIDADE.

Por exemplo, 2017 e a pergunta que não DEVERIA calar com relação aos museus do Brasil e do mundo:

Guerrilla Girls no Masp – mais de 60% dos nus expostos no museu são femininos, contudo apenas 6% dos artistas são mulheres
Porém, a pergunta que não cala na boca de um pessoal e que, só de pensar, me dá uma deprê… essa todo mundo já deve saber. E tem pano pra manga nestes textinhos aqui: 
Agora sobre uma boa pergunta a fazer sobre museus, o grupo feminista Guerrilla Girls monitora e denuncia os índices absurdamente baixos de artistas mulheres e não negras (os) nas galerias e museus de todo mundo. São mais de 30 anos explorando esses números e, infelizmente, parece que os dirigentes da arte mundial não tem se sentido muito envergonhados já que pouco ou nada mudou.
Tudo isso foi reunido na retrospectiva “Guerrilla Girls: gráfica 1985-2017”, em exposição no Museu de Arte de São Paulo até 14 de fevereiro de 2018. DICA: às terças a entrada é gratuita!
As minas estão em massa na exposição das Guerrilla Girls no Masp
Público acompanhando a exposição das Guerrilla Girls no Masp
Além de apontar desigualdade no número de exposições únicas celebradas por mulheres em praticamente todos os museus analisados, a Guerrilla Girls também investiga outros dados. Nos Estados Unidos, por exemplo, elas afirmam que as mulheres recebem apenas 2/3 do salário dos homens para a mesma função. Na arte os dados são ainda piores: as artitas recebem somente 1/3 do que seus colegas homens.
São muitas obras expostas e, segundo o Masp, “É interessante considerar como o discurso humorado das Guerrilla Girls se articula com questões mais abrangentes e profundas como o eurocentrismo, o privilégio branco, a heteronormatividade e o domínio masculino”. Por fim, sabe quanto custa o catálogo da exposição? R$10! Você encontra ali mesmo nas lojas do Map a brochura com os 117 cartazes traduzidos para o português, presentes na retrospectiva “Guerrilla Girls: gráfica 1985-2017”.
Vídeo produzido pelo Masp/ Facebook Masp


Então, já sabe, né? Coloque a máscara e se junte-se ao ideal!




Mais uma lição do intercâmbio: to encourage

Enquanto eu estava no avião, indo para a África do Sul, mil coisas passaram pela minha cabeça. Quanto eu iria conhecer? Quantas pessoas passariam pelas retinas e com quantas eu trocaria palavras, abraços, sentimentos? Confesso que nessa hora, a mais genuína e completa expectativa do intercâmbio, não lembrei do certificado que ganharia ao final do curso de inglês. Aprimorar a língua era o fim, mas o certificado nunca foi o único meio. Por isso a cultura, os sorrisos, a música, as danças, a História! Por isso a África do Sul.

Grand Africa Cafe – Região de Waterfront – Cape Town // Foto: Thais Fernandes

Passaram-se três meses, como se fossem três dias para o meu coração que queria mais, como se fossem três anos para o meu caráter e minha experiência que se fortaleceu como nunca. Ao final disto, ganhei meus certificados. Estudei em duas escolas que recomendo sem pestanejar: LAL e Interlink. Cada uma no seu estilo e para determinado perfil, me ensinou tanto, me encheu de amigos, consolidou meu inglês.

Nesta última, eu nunca vou esquecer minha professora vindo até mim para dizer que havia sido um prazer e que eu continuasse estudando para, com certeza, ter meu inglês cada dia melhor. São coisas básicas para um professor dizer, pensava, mas eu vi no olho dela um brilhinho. A Leandra é muito gentil, calma e reservada, esta última na medida que tem origem familiar holandesa. Mas, nessa hora ela não hesitou em se aproximar e pontuar muitas coisinhas que eu havia feito. Como eu interagia com os outros alunos para que eles participassem mais. A minha turma era pequena, maioria esmagadora de meninas árabes (suas lindas! miss you), eu e meu pequeno amigo turco (cute and silent).

Era mais fácil para mim criar sentenças usando a criatividade, por exemplo. Meu exercício preferido na vida, inclusive, era receber duas palavras aleatórias e inventar na hora uma frase que utilize as duas. Para mim era divertido, soava engraçado e eu testava os tempos verbais enquanto criava sem medo do ‘nonsense’. Mas, para alguns dos meus amigos era dificílimo. Aí a Leandra lembrou como além de me arriscar, falando bastante e sem medo, eu havia olhado para meus outros colegas. Chamava eles e dizia que ‘yes, of course you can. just try!’, quando gaguejavam e pensavam que ‘it’s impossible’. Brincava de ‘soprar’ ideias e eu sei que eles confiavam em mim.

Então, li meu certificado e a observação “Thais has improved substantially over her time at Interlink. She is always eager to speak and encourages other students to speak” me encheu com o mesmo brilho da minha teacher. Eu sempre admirei a palavra ‘coragem’. Quem diria que meu maior presente dessa jornada para aprender seria ouvir que fiz algo para ‘encorajar’ outras pessoas a se arriscar e aprender também?

Com certeza, quando citar essa experiência, a observação da minha professora valerá mais do qualquer nota nesse certificado.

Encourage yourself, and never forget to look to your brothers and sisters as equal. ❤

Como está sendo seu retorno?

Já se passaram duas semanas. Gigantes.
Vou ter que explicar de um jeitinho todo meu e que é o único que eu posso. Está sendo surrealista. Sabe aquelas pinturas dos relógios derretendo? Estou toda Dalí. Salvador me falta. É como se tudo tivesse sido um sonho. Três meses lá na África do Sul e parece que se passou um dia no meu país. Na minha família. Nos meus amigos. As casas, eu penso, como as casas podem estar tão iguais? Não são elas que estão iguais. Sou eu que derreti feito os relógios. Meu tempo lá passou sem horário. Cinco horas de diferença e anos de experiências de uma vez só.


Encolhe e esquece o que ficou pra trás, me falou a Alice. Não essa, a do País das Maravilhas mesmo. E tudo que eu vivi veio de uma vez. Um combo de emoções por dia. Três tapas na cara. Um de raspão que eu não sei por quê veio, mas sei de onde, é machismo todo dia aqui, por quê não ia ser lá? Os outros dois também foram, qualquer dia explico.
Beba-me, esquece, coma-me e cresce agora, dizia a África todos os dias. Eu e os meus bebemos até o fim. Todos os dias bêbados de novidade, nenhum dia de ressaca. Quem tinha tempo pra isso? No Sul o tempo não se arrasta. Toda vez que o sol toca o mar, ele é engolido tão rápido! E a gente parava tudo pra ver esse desastre natural. A gente ia junto e se permitia meia hora de êxtase. Ninguém para pra ver isso em São Paulo? Não tem mar pra engolir o sol. Aqui os engolidos somos nós, eu penso.

Eu e os meus. Eu deles. Eles-eu. A gente junto. Let’s go? Let’s go! Bora. Nós em todo lugar! Lá me lembrou que tudo é benção e que todo tempo é agora. A gente viveu cada minuto, se amou, se conheceu, se esqueceu e olhou pro lado de novo. Eram lembranças em todo lugar, como quem viveu uma vida inteira.

Me sinto enorme. Aquele pedacinho de continente me encheu. De tão grande, o retorno é como se estivesse prestes a explodir, ou a transbordar… E o que fazer agora? Decifra-me ou devoro-te, esfinges que ainda não vi, relógios que vem comigo e as respostas que eu não quero dar.