Debaixo dos fios daquele bigode, toda poesia. O que me agrada, de cara, em Leminski é a sua caricata figura. Bigodudo, nem muito novo, nem muito velho. A meia idade de Paulo é o que me vem à mente quando ouço “Leminski”. Um dos autores com menos rugas dos quais consigo me lembrar, – e não há problema nenhum nos nossos septuagenários – acho que foi com Leminski que comecei a entender que o autor é real, ele é gente. E ele pode, vejam só!, ser um alguém jovem e, se a gente e ele tiver sorte, pode até estar vivo.
Esses dias fui à exposição ‘Múltiplo Leminski’, aqui em SP. A curadoria é de Alice Ruiz e das filhas do casal, Aurea e Estrela. Um detalhe que, sim, faz toda diferença. Não conheço bem a obra da Alice, também escritora, tão pouco a vida da Aurea e da Estrela. Mas, olha, me senti em casa.. Na casa deles, vendo um álbum de família em forma de poemas, recortes de jornal, móveis e livros do meia Paulo.
Os rabiscos, as interações e os móveis de madeira me fizeram ter uma noção mais concreta da inquietudade de Leminski. É como se cada um desses elementos retratasse um pedaço seu: rabisco – haicai, móveis – concretude, interações – pop. Esse mix ambulante e com bigode é puro ponto de exclamação pra mim!
Onde já se viu um intelectual do naipe dele, poliglota, escrevendo “Tudo que li/ me irrita / quando ouço / Rita Lee”?Me irrita também, Paulo!, tenho vontade de gritar, sempre que relembro esse.
E minutos depois, a calmaria de enxergar essa condição humana.
“Teses sínteses / Antíteses / Vê bem onde pises / Pode ser meu coração”
É como se, entre os móveis da sua casa, ele me abrisse um diário: não importa por onde andes, é sempre um coração no caminho, me confidencia esse danado.
Alguém com uma cara entre pai dos anos 80 e hippie aposentado… e tão genial! E tão ao alcance. Adoro Leminski especialmente por ter sido um dos primeiros a desarmar minha estúpida tese de adolescência, a de que autor era um imortal-morto com cadeira em alguma distante Academia de Letras. O bigodudo viveu com tudo! E é isso, Alice, Aurea e Estrela, não há meio melhor de lembra-lo. Paulo muito “Múltiplo Leminski”.